Archive for the 'Uncategorized' Category

25
abr
10

Apresentação

  A cidade de São Paulo, como uma das maiores metrópoles do mundo, abriga uma grande diversidade de contrastes e particularidades que fazem desta, única. Porém, diante do caos estabelecido na sociedade pós-moderna, nossos sentidos são cegados e inibidos para muitos fatores que, intrinsecamente, estão envolvidos em nosso cotidiano.

                O blog Álbum de Fatos tem o objetivo de, a partir da fotografia, fazer reflexões sobre a cidade de São Paulo e suas diferentes realidades, paradoxos e heterogeneidade cultural; buscando, assim, a realidade que vai além das imagens.

25
abr
10

Assédio moral

Nota: A partir das fotos  abaixo construimos uma crônica. No final do texto terá uma observação que explicará e relacionará as fotos com a crônica

Eram duas da tarde e eu me preparava para cobrir o caso do padre Teodoro, acusado de ter molestado três garotos entre oito e dez anos de idade. A maioria dos jornais estava dando enfoque aos diversos casos de pedofilia relacionados com padres e bispos, o que não era diferente de onde eu trabalhava. Um jornal voltado para a classe média que tinha como foco principal ressaltar o conservadorismo e a moral do cidadão.

Chegando a Parelheiros, onde ficava a “Sol Dourado”, igreja de Teodoro, fui rapidamente encontrar o pedófilo. O título da matéria seria “Padre pedófilo não se arrepende do que fez”, no qual mostraria como Teodoro se mostrava frio perante tudo que cometeu. Fui em direção a um velho e perguntei:

-Onde está o padre Teodoro Stronsa?

-Você deve ser o Fabiano, o jornalista.

-Sim, sou eu mesmo.

-Venha, vamos conversa em lugar mais privado.

Quando o senhor foi me levando para uma salinha, percebi que aquele era Teodoro. Sentamos um de frente pro outro, quando eu começava a me preparar para fazer as perguntas, o padre começou a desabafar:

-Finalmente poderei falar o que realmente aconteceu…. Eu falei para ela parar de bater nos garotos, mas ela não me escutou e tornou a roubar dinheiro da igreja novamente. Quando ameacei de denunciar ela pra policia, me vi rodeado de acusações e ainda vi os meninos falando que os molestei, ela só pode tê-los obrigado a afirmar isso.

-Essa mulher a que o senhor se refere é Adilma, mãe das crianças?

-Ela mesma

Depois de ouvir Teodoro confirmar a minha pergunta, prossegui atordoado com a entrevista, realmente o rumo da reportagem havia mudado completamente e era extremamente diferente do que eu havia imaginado.

Entretanto, mesmo assim sai da igreja imaginando que Teodoro só estava blefando e provavelmente mentindo para mim. Até que na porta da igreja, reconheci um garoto que passava, era Harley, um dos garotos molestado pelo padre.

-Ele está bem? – perguntou o garoto

– Quem o padre Teodoro?

-É, eu não queria dizer tudo aquilo, mas a mãe falou que era pro nosso bem…

Depois da revelação do garoto, fiquei mais confuso e constrangido do que antes e pedi para que ele me levasse até a mãe dele. De frente com Adilma, recebi as mesmas informações que o resto da mídia tinha: que o padre Teodoro havia molestado os três filhos de uma humilde empregada doméstica, enquanto ela trabalhava para sustentá-los.

Quando sai da casa da moça, respirei aliviado, o forte cheiro de álcool havia me deixado zonzo. Resolvi andar pelas ruas e perguntar para os cidadãos o que eles achavam de Teodoro e se acreditavam no que Adilma afirmava. Todos achavam que o padre era inocente, além de falarem mal da empregada, afirmando que ela deixava os filhos largados enquanto bebia em um bar da esquina.

No final da tarde, eu estava voltando para a redação não sabendo mais qual seria o rumo de minha matéria. Eu sabia que meu jornal não aceitaria a versão que inocentava Teodoro, mas sabia que se eu cometesse uma injustiça contra o padre, poderia prejudicar a vida do velho completamente.

A dúvida de qual caminho tomar, de como tratar com o dilema estava acabando comigo. Eu escolheria entre o sucesso e reconhecimento pessoal ou a dúvida de condenar um homem diante uma sociedade extremamente julgadora. Naquele momento me sentia tão pequeno em relação ao mundo, os carros passavam ao meu lado e todos diferentes, os rumos mudavam. A cidade mostrava como a minha decisão podia ser pequena, afinal eu olhava ao redor e via mendigos, pessoas passando fome e tudo passava pelos meus olhos em uma fração de segundos. Mas estava claro, diante daquela transitoriedade toda era a minha vez de escolher o caminho a seguir, mesmo parecendo uma decisão pequena, poderia mudar mesmo que minimamente o fluxo e comportamento da cidade de São Paulo.

No final do dia entrego a notícia e o título era….

Observação: A crônica mostra como fotos comuns da cidade de São Paulo podem servir para ilustrar não só situações e momentos pessoais de alguém.  Como elas possuem um poder de interpretação único para aqueles que as observam.

Uma foto pode representar mais do que apenas um retrato físico e sim um retrato subjetivo, no qual os olhos de quem vê a imagem é que escrevem a história por detrás destas.

Além disso, a foto é como a crônica contada aqui. Pode parecer uma coisa, mas pode ser outra bem diferente da imaginada. O que define como elas serão interpretadas depende de quem as interpreta.




Autores

Eduardo Diamenti, Fernanda Pithan, João Quero, Juliana Droghetti, Thiago Oliveira e Vitor Hugo.

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